domingo, 8 de novembro de 2009

Algumas palavras sobre a castração

Essa semana vou marcar a operação dos meus gatos. Há poucos meses eu era contra castrar os animais domésticos, mas cedi devido ao trauma de não ter mais o Zaratustra na minha vida. Falar sobre isso ainda é doloroso, porque o amor que sinto por ele não desapareceu com o seu sumiço e só mesmo o amor dobrado de meus dois novos amiguinhos pra ajudar a tapar este buraco que a ausência dele me deixou no coração. O que eu quero dizer é que eu valorizo a liberdade dos animais e pra mim esta decisão é difícil e eu só a tomo porque acho que dos males que podem acontecer a um gatinho, este é o menor.

Porque são demais os perigos dessa vida pra quem faz miau. Muitas pessoas não gostam de gatos e os maltratam ou os envenenam. E ainda há a possibilidade de atropelamentos, de cercas elétricas, dos cães raivosos. Eu prefiro não especular sobre o que pode ter acontecido com o Zara, apesar dos rumores de atropelamento. Prefiro imaginar que ele está vivendo numa grande colônia secreta de gatos nômades e que ele foi embora porque era livre demais pra ficar numa casa só. Escrever isso me dá um nó na garganta e eu sei que não suportaria passar por isso de novo e morro de medo de imaginar que algo ruim pode acontecer com meus filhotes.

Eu sei que a castração traz alguns benefícios para a saúde dos bichos e que diminui a vontade dos gatos de sair por aí, mas não deixo de pensar nisso como uma violência. Então eu penso que se o mundo não fosse como é nós poderíamos deixar os animais viverem soltos, mas o mundo não é como gostaríamos que fosse... Mas isso me deixa frustrada porque eu sempre penso que as coisas são como são porque não estamos dispostos a começar a viver de acordo com nossas convicções. Não castrar o Zara foi uma decisão coerente com o que eu acredito. E era lindo ter um gato livre. Eu sofria quando ele sumia e sofro ainda porque ele não voltou, mas, Deus, como era bonito ver ele ir e voltar pelos telhados dessa vizinhança!

Eu sei que cada gato é diferente do outro, noto que o Frajola e a Pandora têm personalidades distintas. Mas imagino como eles vão ficar depois de castrados. Será que vão brincar como hoje? Será que vão continuar carinhosos? Os gatos castrados que eu conheci eram tão esquisitos. Isso é algo que eu só vou saber quando acontecer.

sábado, 7 de novembro de 2009

Eu não nasci pra ser gorda

Parar de fumar me deu a expectativa de mais uns anos de vida e cinco quilos a mais distribuídos de modo que, dependendo da roupa, eu pareço uma gestante. Não é exagero. Não foi uma vez que alguém me deu o lugar no ônibus/trem confundidos pelas minhas formas compostas de peitos, barriga e bunda gigantes.

Isso acaba comigo. Porque eu estou gorda, mas sou magra. Então me fico arrasada ao notar minhas roupas apertadas, algumas que nem servem mais, e os meus esforços para parecer mais bonita com o rosto bolachudo cheio de maquiagem e os braços roliços cobertos. No calor que tem feito não é fácil e estou pensando seriamente em deixar de usar biquíni e aderir logo ao maiô.

Estar gorda é horrível porque eu me olho no espelho e não me reconheço. Há um ano eu tenho feito exercícios regularmente e vinha mantendo o peso em torno de 60, 61 kg. Até perdi um pouco mais de peso quando deixei de beber, mas nunca menos de 59. Então eu voltei a beber e relaxei na alimentação (voltei a comer carne) e pronto, 64kg, 14 a mais do que eu pensava há 10 anos. Eu não quero ter um corpinho de mocinha, sei que isso muda com a idade. Mas 14kg em 10 anos é muita coisa. E eu estou me sentindo muito feia.

Agora está fazendo um sol incrível e eu fico com vergonha de ir ao clube tomar sol. Daqui a um mês irei a um casamento de amigos do tempo da faculdade e fico imaginando encontrar pessoas que vejo raramente e elas pensarem "nossa, como engordou". Estou ensaindo um regime, mas é muito difícil pra mim me privar das coisas que gosto. Ou comer pouco. E eu gosto tanto de tomar cerveja!

Eu fico olhando minha irmã, que entrou na faculdade gordinha por causa do vestibular e agora está linda, porque teve disciplina pra fechar a boca e fazer exercícios. Eu não sou disciplinada. E fico triste me perguntando se um dia vou conseguir perder esses quilos extra e ficar com um peso que eu acho bom pra minha idade e altura, 56 kg. Pra isso eu teria que perder 8kg. Isso me desistimula só de pensar e me dá vontade de correr e afogar as mágoas num pote de sorvete.

domingo, 1 de novembro de 2009

A sorte, o curso e o destino

Dizem que a sorte não bate muitas vezes em nossa porta. Na minha, a sorte bateu uma vez e eu a mandei embora. O ano era 2003 e a sorte se chamava Curso Estado.

Eu havia acabado de chegar em São Paulo quando um amigo de Belém me disse que em breve estaria aqui para fazer a tal prova. Perguntei se era grátis. Era. Então eu fiz a prova e passei, para o espanto geral e de mim mesma. Aos 23 anos, apenas um ano de formada e experiência apenas no jornal de minha cidade me vi dentro de um dos maiores jornais do país.

Durante o curso, eu e meus colegas ouvimos várias vezes que naquela salinha se encontrava a futura elite do jornalismo, a "nata" dos jovens jornalistas. Não sei quanto aos meus colegas, mas eu me sentia como se tivesse entrado em um clube exclusivos dos eleitos e meu futuro glorioso tantas vezes sonhado por mim e por meu pai era certo. Três meses depois o curso terminou e eu voltei pra casa ainda cheia de esperanças. Uma hora as coisas iam dar certo.

Mas isso nunca aconteceu. Há uma série de motivos para isso, mas vou listar apenas dois: minha falta de maturidade/equilíbrio na ocasião e o fato de que eu nunca pensei de verdade no jornalismo projeto de vida.

Aos 23 anos eu tinha uma cabecinha de 16. Era ingênua, briguenta, irresponsável. Falava demais, bebia demais, me preocupava demais com namorados, de modo que nunca encarei o curso como uma oportunidade profissional. Pra mim aquele era o reconhecimento do quanto eu era boa . Devido ao transtorno bipolar minha autoestima sempre oscilou entre dois limites, o abismo e a estratosfera. Havia alguns momentos em que eu realmente me dedicava e amava aquilo tudo. E outros em que simplesmente tudo me enfadava e eu tinha vontade apenas de chorar e sair correndo dali. Em suma, eu não tive estrutura pra lidar com aquilo.

Apesar disso, não creio que o curso tenha sido determinante no meu fracasso na profissão. É aqui que entra o segundo motivo, o fato de nunca ter levado a sério o jornalismo como profissão. Eu sempre vi o jornalismo como algo "de passsagem", um trabalho que eu deveria exercer até que os meus delírios megalomaníacos se realizassem e eu me tornasse a maior escritora do Brasil, ganhasse o Nobel e mandasse o mundo se foder (porque afinal de contas eu já teria 1 milhão de dólares mesmo). Não vou me estender sobre a minha conturbada e falecida relação com a literatura, por hora basta dizer que ao invés de escrever os livros antes, eu comecei pela parte de mandar o mundo se foder. Eu era uma repórter mediana e nunca me esforcei pra ser mais do que isso.

Hoje quando penso nisso tudo não sinto remorsos. Nem penso que se pudesso voltar no tempo teria feito diferente. Porque foi no meio de toda essa confusão que eu consegui me encontrar e sr feliz no que estou fazendo, sem grandes ilusões, mas tampouco com amargura. Desde a minha adolescência eu flertava com a filosofia e com reflexões que vão além da "vida prática". No fundo, eu tinha um certo desprezo e não tinha muito pudor em expressá-lo, pelo pragmatismo e pela superficialidade do jornalismo. Mas foi só quando eu não dei certo nessa profissão que pude me dedicar ao que realmente me dá prazer, a academia.

É claro que me custaram muitas horas de divã e muito Nietzsche pra me dar conta de tudo isso. Hoje engatinho em uma nova profissão de modo completamente diferente, porque tenho consciência das minhas limitações e das minhas habilidades, não tenho mais como propósito conquistar o mundo e por isso vou curtindo cada passo do caminho. Não que eu nunca tenha sido feliz no jornalismo, porque fui. Mas foi em outra vida, quando eu era outra pessoa. Agora existe uma outra perspectiva, há outros planos e ao mesmo tempo me parece óbvio que era isso que eu estive procurando a vida inteira.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Resoluções antecipadas

Depois de uma viagem para a Argentina e mais duas pela frente, que ainda não paguei, minha conta bancária chegou ao singelo saldo de 11 reais. E ainda tem a inscrição pro doutorado, a inscrição pros meus congressos, despesas de viagens e mais um monte de coisas que eu prefiro nem pensar. Hoje eu comecei uma dieta nova pra perder 3kg em 40 dias. Quando eu era vegetariana e abstêmia era mais magra e não tinha tantas dívidas. Vou tentar voltar a esse esquema e ver se dá pra economizar. Mas a situação pede que eu antecipe minha resolução de fim de ano: arrumar um emprego.

Comecei minha busca oficialmente hoje. O problema desse negócio de dar aula (além de eu não ter experiência em docência, nem conhecer as pessoas da área) é que as vagas são sazonais e só abrem a cada seis meses. Então, se não rolar nesse semestre, vou ter que deixar pro próximo. Vamos vamos torcer pra que dê certo, porque do contrário eu teria que procurar algo no jornalismo mesmo e eu nem tenho idéia dos efeitos que isso causaria na minha vida ou na minha cabeça. Estou com medo, sou naturalmente pessimista, embora esteja tentando mudar isso e pensar positivo. Torçam por mim.

domingo, 18 de outubro de 2009

Mudança de planos

Minha intençao era fazer um semestre "sabático" para escrever e pensar. Tudo estava indo bem até certo ponto - comecei a fazer aula como aluna especial na USP, emplaquei uns trabalhinhos nuns congressos, escrevi meu projeto de doutorado - mas fui surpreendida por alguns acontecimentos que mudaram o rumo das coisas. A parte do sumiço do Zara e da doença do meu pai foram as duas coisas que mais me fugiram ao controle, duas fatalidades previsíveis. Os gatos livres vão embora, o câncer eventualmente volta.

Isso alterou um pouco a minha rotina, me deixou meio desnorteada, mas agora que as coisas se acalmaram, eu vejo algumas coisas com mais clarezas. Pensei em voltar à Comununicação, mas decidi que estou bem nas Ciências Sociais e na PUC. Apesar disso, foi muito importante revisitar esta área, saber que não quero me fechar em apenas uma área do conhecimento, aceitar essa minha característica transdisciplinar, pensar melhor no que eu quero e não quero fazer da vida.

Mas o mais importante e mais assustador foi constatar que nesse período, sem o compromisso de ter um emprego ou uma dissertação que me impedisse de escrever e com todo o impulso do turbilhão de emoções gerado pelo sumiço do meu gato e pela doença do meu pai - eu simplesmente não escrevi. Durante anos essa foi a minha muleta imaginária. Eu nunca me dediquei a uma profissão porque estava convencida de que minha verdadeira vocação era essa e tinha uma desculpa perfeita pra não dar certo, afinal nada era do que eu queria. Até que um dia, não faz muito tempo, encontrei algo que gosto de fazer.

Eu cheguei a pensar que não daria certo nisso também, que não daria certo em nada por causa dessa fantasia juvenil. Por muito tempo escrever era minha única convicção. E não que eu não ache que não seja boa nisso ou que não tenha escrito coisas muito legais, porque eu acho mesmo, sem modéstia. Mas hoje percebo isso não é mais uma questão como foi durante muitos anos. Pode ter sido excesso de análise ou de Nietzsche. O fato é que eu não preciso mais disso pra ser feliz. E se por um momemnto isso me assustou, hoje é algo que faz sentir livre como um passarinho. Ou como um gato fujão.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A descoberta da América

O feriado nacional é de Nossa Senhora Aparecida, mas também se comemora o Dia das Crianças. Na Argentina, no Chile (e creio que nos demais países da América do Sul) hoje também é feriado, mas o que se comemora é a descoberta da América.
Estive na Argentina semana passada e me apaixonei. Fiquei em Mendoza, quase na fronteira com o Chile, cidade produtora de vinhos e um dos lugares mais bonitos onde já tive a sorte de estar. Além da beleza do lugar e da simpatia das pessoas (brasileiro tem essa implicância com argentinos, mas eles são muito amáveis com a gente), algo mais importante me chamou atenção.
Os argentinos são muito politizados. Todos os dias vi em algum lugar algum protesto ou manifestação. Em vários lugares há painéis que relembram os dias de luta, seja do passado recente da ditadura ou da libertação da América e seus heróis, Che Guevara, General San Martín, Simon Bolívar. Há uma tradição de remomoração desse passado, mas não de uma forma vitimizada. Visitei uma praça que celebrava a ligação com a Espanha, que não negava uma herança cultural que vai além da língua.
No Brasil não sabemos lidar direito com isso. Damos as costas para a América e para essa tradição e, com exceção de certos círculos, a política não faz parte de nosso cotidiano. E não sabemos lidar com o fato de termos sido colonizados, temos um complexo de inferioridade travestido de orgulho da brasilidade. Em outras palavras, exaltamos a cultura popular brasileira tomando uma cachacinha na Vila Madalena, mas na primeira oportunidade saímos correndo pra Paris. Nossa primeira opção de viagem é ir pra Europa ou Estados Unidos, torcemos o nariz para nossos vizinhos como se quiséssemos manter esta distância que da parte deles não existe.
Aprendemos inglês, francês, italiano e alemão muitas vezes antes de pensar em estudar espanhol. O fato de as universidades brasileiras não aceitarem essa língua nos exames de proficiência de pós-graduação é sintomático disso tudo que falei. Achamos que é mais importante ler os europeus (franceses e alemães principalmente nas ciências sociais em gerak e ingleses/americanos na ciência política especificamente) e conhecemos muito pouco do que se produz de conhecimento nos países vizinhos.
Redescobrir a América. É isso que deveríamos fazer.

domingo, 4 de outubro de 2009

Aos poucos as coisas se ajeitam

Depois de uma quarentena desesperadora parece que as coisas finalmente estão mais sob controle. Esta semana viajo para a Argentina para apresentar meu primeiro trabalho num congresso. Todo o processo me deixou apavorada porque eu vou sozinha e eu não sei me virar direito, sou muito dependente, eu acho. Mas no fim, com uma pequena ajuda dos meus amigos, consegui organizar a viagem e agora só falta mesmo fazer as malas. Estou contente com isso, é um pequeno passo, mas representa muita coisa. Vou a outro país apresentar um trabalho, sozinha.

Acho que se me esforçar posso até dar certo nessa coisa de ser independente. Minha casa está bagunçada e suja, não tenho ido regularmente à academia, minhas unhas estão roídas, eu engordei e meus gatos cagam fora da caixinha de vez em quando. Mas consegui resolver o problema do meu computador, consegui ver meu pai, que já está fazendo um novo tratamento e tive um trabalho aceito em outro congresso. Quer dizer, aos poucos as coisas vão se resolvendo. Até a minha franja, que eu fui aparar sozinha e no dia ficou um horror, agora parece que está mais simpática, assim, como um corte de cabelo moderninho propositalmente torto.

Estou descansada. Eu tenho muita sorte de viver cercada por pessoas boas que me passam muita energia boa. Tive uma semana bem agitada, mas a companhia das pessoas - dos meus amigos, da minha família, e dos meus gatos, que são uns capetas, mas são lindos e meiguinhos - tem me ajudado a me recompor. Isso é fundamental.