segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Evil


Eu sempre disse que não gostava de gente boazinha e eu achava que isso era porque eu me considerava muito esperta e cruel. Hoje eu percebo que o motivo de não gostar das pessoas boazinhas é porque em geral essas pessoas é que são verdadeiramente cruéis, só que cobertas pelas suas capas de civilidade. É como diz aquela música do Belle and Sebastian: I'm brutal, honest and afraid of you.


Há aí dois problemas com os quais eu não consigo lidar. O primeiro é a atitude boazinha. São os sorrisos doces demais, o tom de voz contido, a linguagem polida. Nada contra gente educada, isso é muito diferente. Parece que há um esforço para agradar, para não dizer nada que choque, para não quebrar o protocolo, para se comportar exatamente do jeito esperado, seja lá o que isso signifique. Sinto-me totalmente paralisada diante dessa atitude.


Pessoas boazinhas podem sempre contar com o trunfo da educação e por isso são capazes das maiores atrocidades com sorrisos nos lábios. Elas sempre podem se dizer mal-interpretadas, cheias de boas intenções. Nunca foi por mal, mesmo quando elas lhe metem uma faca sorrindo e lhe arrancam o coração. E você não reage, porque é muito rápido e você pode pensar que você mesmo entendeu mal. Pelo menos até adquirir alguma experiência com as pessoas boazinhas.


Em geral enho um senso de humor um tanto ácido. Eu me finjo de má para fazer rir, comparando crianças com cachorros ou homens a xampus. Pessoas boazinhas em geral não riem das tiradas com espírito de porco. E por serem assim tão boazinhas essas pessoas nunca passam por loucas, desequilibradas ou descontrolados. Mas em compensação dizem as coisas mais cruéis sem a menor hesitação, com uma naturalidade de corar Calígula. É por isso que eu não gosto de pessoas assim. Elas me dão medo.

domingo, 10 de agosto de 2008

Como é que se diz eu te amo

Quando eu tinha uns três anos o meu pai ia nadar no clube e me levava junto. Eu colocava os bracinhos ao redor do seu pescoço e ele nadava comigo pendurada nas suas costas. Uma vez eu quase me afoguei porque ele me pediu que ficasse na beira da piscina esperando por ele e eu quis ir atrás e quando ele percebeu estava do outro lado da piscina e teve que chamar ajuda porque não teria tempo de me salvar. Isso nunca me afastou das piscinas, mas anos depois eu e meu pai nos afastamos um do outro.


Meu pai passou o último ano lutando contra o câncer. Passou por uma radioterapia que não deu certo e uma cirurgia traumática e todo o horror que é receber o diagnóstico de uma doença que parece ser sinônimo de uma sentença de morte. Quando uma pessoa tem câncer a família inteira adoece. Temos que lidar juntos com a doença, com a dor, com os conflitos que toda família tem, com a possibilidade da morte e com a certeza de que a vida não pára.


E como a vida não pára, no Dia dos Pais do ano passado eu fui a um clube para visitar o salão onde me casei meses depois. Eu pensei em adiar o casamento, deixar pra depois que tudo estivesse acabado. Durante alguns meses tive que alternar o estresse de planejar um casamento com o estresse de ser a única companhia do meu pai em tratamento. Foi muito difícil, mas não me arrependo. O dia do meu casamento foi a primeira vez em meses que vi meu pai sorrindo de verdade, dançando feliz por ser pelo menos por uma noite o pai da noiva, não uma pessoa com câncer.


No dia dos pais do ano passado tinha um pai nadando no clube com a filha sobre as costas do mesmo pai e aquilo me fez chorar. Eu abracei meu marido e disse que não sabia nem se no próximo dia dos pais eu teria um pai e ali estava eu planejando um casamento quando eu não sabia nem em que condições de saúde ele estaria pra poder entrar comigo. No fim tudo deu certo. Hoje nós estivemos juntos no mais significativo Dia dos Pais da minha vida. Percebi que não era medo que eu sentia diante da cena da menina com o pai na piscina. Era pesar por todo tempo estivemos afastados e receio de nunca mais ter aquilo que tínhamos quando ele nadava comigo. Mas hoje eu sei que tenho isso de novo. E também sei que tenho muita sorte.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

A parte chata da coisa

Sexta-feira chuvosa. Minha amiga que vinha pra cá me fazer companhia não pode vir por causa da chuva. Peguei um resto de vinho, chocolate e meu computador. Na televisão está passando A Era do Gelo 2, mas não consigo prestar atenção ou achar graça. Tentei ir sozinha a uma festa, mas só tinha gente velha e chata lá, então eu olhei o salão no qual vivi o dia mais feliz da minha vida, dei meia volta e vim pra casa fazer companhia ao meu gato dorminhoco e destruidor de rolos de papel higiênico.

Eu sempre gostei da Odisséia, mas nunca me imaginei no papel de Penélope. Eu espero por você Ulisses, pelo tempo que for preciso, não importa quantas vezes eu tenha que tecer e desmanchar esta mortalha para tecê-la novamente. Tudo pra fazer o tempo passar bem depressa até você voltar pra mim.

Eu gosto de isolamento. Mas tem horas que é difícil. Tem horas que isso se chama solidão.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Estraga-prazeres

O problema de começar a se viciar em uma coisa que as pessoas já estão viciadas há tempos são os malditos spoilers. Sempre tem algum espertinho pra contar o que você não perguntou. É incrível, as pessoas não têm poder de síntese o suficiente pra comentar algo sem estragar a história. É infalível: você comenta com alguém que já leu um livro, viu um filme ou assistiu a uma série e em 99% dos casos a pessoa vai soltar um spoiler e estragar tudo. Eu namorei um cara que era especialista nisso. Sempre os comentários dele contavam o final ou quem vai morrer. Ou que haverá uma reviravolta, quando a pessoa acha que não está te contando dizendo que o final é "totalmente inesperado". Saco.

E o pior é que quando você grita "Não me conta!" a pessoa ainda quer insistir, dizendo que não compromete a história...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Um vício chamado Lost

Geralmente sou muito desconfiada com coisas que todo mundo gosta. Desconfiada não é bem a palavra, eu tenho má vontade mesmo. Quando eu vejo coisas tanto as pessoas que eu considero muito inteligentes quanto as que considero muito idiotas gostam eu logo presumo que aquilo é ruim. Afinal, mesmo os mais inteligentes têm uns gostos terríveis de vez em quando.

Minha má vontade atual é o CQC. Eu já vi uma vez, é legal. Mas depois que eu vi alguns imbecis dizendo que adoravam eu comecei a antipatizar. Foi assim com o Lost, mas essa semana eu decidi me render. Estou vendo desde a primeira temporada e admito que é uma série muito boa. Bom roteiro, bons personagens, bom ritmo. E uns atores lindos também. Ontem eu assisti a cinco episódios seguidos. Meu gato não gosta muito da série, porque ele sempre dorme enquanto eu assisto. Os felinos são muito mais blasé e não ligam muito pra cultura pop.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Lonely, lonely, lonely time

Eu não sou antisocial, nem nada disso. Eu gosto de gente e de conversas, mas de vez em quando tenho a assustadora sensação de que me sinto melhor sozinha que na companhia das pessoas. Tenho passado dias a fio sem sair de casa na companhia do meu gato e eu me sinto tão bem! Esses dias alguns amigos vieram aqui e a gente bebeu e comeu pizza e foi ótimo porque eu só tive contato com as pessoas que eu queria, não tive que ouvir nenhuma conversinha idiota involuntariamente (nem voluntariamente porque eu só tenhos amigos inteligentes e divertidos). A verdade é que eu me sinto muito bem na minha própria companhia e se tiver internet, televisão e comida sou capaz de passar muitos dias sem ao menos pôr a cara na rua porque eu realmente gosto de ficar só. Eu não preciso muito de convívio social, eu só preciso um pouco das pessoas porque as pessoas são minha matéria-prima.

sábado, 2 de agosto de 2008

Vida de gato

Hoje eu vou passar o dia dormindo. Ocasionalmente me levantarei para comer e ir ao banheiro. Tudo no ritmo do meu gatinho, que me acompanha alegremente nessa tarefa de dormir. Só os gatos sabem o quão bom e necessário é dormir o dia inteiro. E observar a preguiça felina é um convite irresistível para me juntar a ele. É isso e depois passar a noite na boemia, mesmo que seja uma boemia indoor.

Porque nos gatos já nascemos notívagos.